‘Resposta fraca a Putin encorajará a China a invadir Taiwan e Rússia a testar a Otan nos Balcãs’, diz pesquisador

Especialista em estudos ucranianos, o britânico Taras Kuzio já chefiou uma missão da Otan, a aliança militar ocidental, em Kiev e acompanhou de perto a anexação da Península da Crimeia pela Rússia em 2014. Na época, comparou Putin a um homem furioso e nostálgico, como um “Hugo Chávez com armas nucleares”. É esse mesmo perfil do presidente russo, afirma, “KGB, imperialista e de chefe de máfia”, que levou à guerra que o mundo assiste hoje.

— A Otan não é a razão da guerra. A razão da guerra é a obsessão de Putin de que a Ucrânia pertence à Rússia — afirma o professor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla e pesquisador associado da coservadora Henry Jackson Society.

Em entrevista ao GLOBO, Kuzio analisa os rumos da guerra e afirma que uma eventual vitória russa encorajará o país liderado por Putin a testar a Otan também nos países bálticos, assim como pode levar a China a avançar militarmente em Taiwan.

Na época da anexação da Península da Crimeia, em 2014, o senhor disse que a crise na Ucrânia não teria alcançado tamanha violência se a Rússia não estivesse envolvida, e comparou Putin a uma espécie de “Hugo Chávez com armas nucleares”. Ainda acha isso?

Os dois propagam um nacionalismo populista e são antidemocráticos. Putin combina três personalidades: KGB, imperialista russo e de chefe de máfia. Ele tem uma “síndrome da arrogância”, que consiste em narcisismo, paranoia, mania de grandeza, fusão de interesses pessoais com os da nação, falta de discernimento, baixa consciência de risco e desprezo generalizado pelos demais.

Afinal, o que Putin deseja com essa guerra?

Ele acredita que a Ucrânia é “território russo”, e que os russos na Ucrânia precisam ser libertados. Ele acha que a Pequena Rússia (Ucrânia) deve fazer parte do mundo russo e estar sob a esfera de influência da Rússia, como acontece com a Bielorússia sob Lukashenko. A Otan não é a razão da guerra. A razão da guerra é a obsessão de Putin de que a Ucrânia pertence à Rússia.

Alguns analistas dizem que o conflito atual tem mais a ver com uma ação de Putin do que da própria Rússia. O senhor concorda?

Não. As opiniões de Putin sobre a Ucrânia são bastante comuns na Rússia. O líder da oposição Alexei Navalny também as têm. A diferença é que muitos outros, incluindo Navalny, não invadiriam militarmente a Ucrânia. É aqui que Putin é diferente. Sua paranoia e regime fazem com que ele precise ter inimigos internos e externos.

A resistência dos ucranianos chamou a atenção com o avanço das tropas russas em Kiev. Putin contava com o nacionalismo ucraniano?

Trata-se mais de um patriotismo do que nacionalismo étnico, já que muitos dos combatentes são falantes de russo. Putin e o Kremlin acreditavam que os “pequenos russos” dariam boas-vindas às tropas russas como se fossem tropas de libertação. Não conheço ninguém em Moscou que entenda a Ucrânia.

O senhor acha que a invasão uniu os ucranianos de maneira sem precedentes? Mais do que em 2014?

Sim, mais do que em 2014, pois a invasão está afetando o país inteiro. Em 2014, estava localizada na Crimeia e em Donbass. A invasão surpreendeu e deixou os ucranianos muito irritados, pois não há razão para a guerra. Os ucranianos já mudaram muito desde 2014, com o Leste da Ucrânia não sendo mais pró-Rússia.

Poucas pessoas ou quase ninguém dizia que Putin fosse chegar à ação militar de fato. Isso torna ainda mais difícil prever os próximos passos? Quão longe isso pode chegar?

Quanto mais a guerra durar, mais provável será a desestabilização política na Rússia e o fim de Putin. Isso virá das consequências de uma invasão fracassada e do impacto das sanções ocidentais.

Que cenário se desenha hoje? E quais são os possíveis impactos dessa guerra para o resto do mundo?

Em todos os sentidos. Afeta economicamente, financeiramente. Putin acha que está travando uma guerra contra o Ocidente na Ucrânia, pois vê a Ucrânia como um fantoche dos Estados Unidos. Se a Rússia vencer porque o Ocidente é fraco, será o fim da Otan, e países como Rússia, China e Irã verão um Ocidente em declínio, acreditando que o mundo está se movendo de um mundo unipolar para multipolar. Uma resposta ocidental fraca encorajará a China a invadir Taiwan e encorajará a Rússia a testar a Otan nos três países bálticos.

Fonte: O Globo

Foto: Ivo Gonzalez / Agência O Globo (09/05/2014)

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