Pior seca das últimas quatro décadas na Etiópia leva ao aumento do casamento de crianças, alerta Unicef

Três temporadas sem chuvas causaram fome, desnutrição e deslocamento em massa de milhões de pessoas no Chifre da África, incluindo partes da Etiópia, Somália , Quênia e Djibuti. Por lá, a seca já é considerada a pior emergência causada pelo clima em 40 anos.

Na Etiópia, uma nova consequência dessa crise chama a atenção: crianças agora passam pelo casamento ainda na infância e esses casos têm aumentado consideravelmente em várias regiões. Além de serem “empurradas” para um casamento, as meninas tiveram que deixar a escola: estima-se que mais de 600 mil abandonaram os estudos.

A razão para essa união precoce seria o fato dos pais buscarem recursos extras por meio de dotes da família do marido e esperarem que suas filhas sejam alimentadas e protegidas por famílias mais ricas, explicou Catherine Russell, diretora executiva da Unicef.

Segundo dados da ONU, na zona de East Hararghe – que abriga 2,7 milhões de pessoas – os casos de casamento infantil aumentaram 51%, de 2021 para 2022. Já em Oromia, os casos quase quadruplicaram. Na última semana, o governo local registrou 672 casos entre fevereiro e agosto de 2021, enquanto nos seis meses de setembro a março de 2022 esse número saltou para 2.282.

A diretora da Unicef considera o movimento “dramático” e acrescentou que quando as meninas não estudam e são forçadas a deixarem suas casas os riscos de violência de gênero e de casamento infantil quase sempre aumentam. “Essas pessoas têm suas filhas casadas porque estão desesperadas por um motivo ou outro: têm medo da violência; eles temem pela segurança das meninas; eles precisam de recursos; eles não podem se dar ao luxo de alimentá-las”, disse Russell ao The Guardian.

Ao mesmo tempo em que se tenta reduzir os níveis de casamento infantil na Etiópia, a seca ameaça esse recuo. De acordo com dados demográficos de 2016, 40% das meninas no país da África Oriental se casam antes dos 18 anos e 14% se casam antes dos 15 anos.

Além disso, a seca está aumentando as taxas de desnutrição aguda grave nas áreas afetadas, com taxas de admissão de crianças menores de cinco anos 15% mais altas em fevereiro deste ano do que em fevereiro de 2022. A população também tem sido forçada a beber água contaminada, elevando o risco de várias doenças, incluindo cólera e sarampo.

O apelo emergencial da Unicef no Chifre da África até agora levantou apenas 20% de sua meta de US$ 250 milhões (£ 200 milhões) para ajudar na crise climática. Russell disse estar preocupada com o fato do foco global no momento ser a guerra na Ucrânia, que acaba desviando a atenção de outros conflitos e crises ao redor do mundo.

“Já estive nessa região da África e sei como é difícil. Não invejo a cobertura de ninguém na Ucrânia, porque eles também precisam de recursos, mas acho que a comunidade internacional não é boa em fazer duas coisas ao mesmo tempo”, completou ela ao The Guardian.

Fonte: O Globo

Foto: Getty Images

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